sábado, 8 de março de 2014

Duas Crônicas

Crônica com diálogos e personagens 
Assemelha-se ao conto, mas de forma mais breve e simples. 

Depois do jantar
Carlos Drummond de Andrade


Também, que idéia a sua: andar a pé, margeando a Lagoa Rodrigo de Freitas, depois do jantar.

O vulto caminhava em sua direção, chegou bem perto, estacou à sua frente. Decerto ia pedir-lhe um auxílio.

— Não tenho trocado. Mas tenho cigarros. Quer um?

— Não fumo, respondeu o outro.

Então ele queria é saber as horas. Levantou o antebraço esquerdo, consultou o relógio:

— 9 e 17... 9 e 20, talvez. Andaram mexendo nele lá em casa.

— Não estou querendo saber quantas horas são. Prefiro o relógio.

— Como?

— Já disse. Vai passando o relógio.

— Mas ...

— Quer que eu mesmo tire? Pode machucar.

— Não. Eu tiro sozinho. Quer dizer... Estou meio sem jeito. Essa fivelinha enguiça quando menos se espera. Por favor, me ajude.

O outro ajudou, a pulseira não era mesmo fácil de desatar. Afinal, o relógio mudou de dono.

— Agora posso continuar?

— Continuar o quê?

— O passeio. Eu estava passeando, não viu?

— Vi, sim. Espera um pouco.

— Esperar o quê?

— Passa a carteira.

— Mas...

— Quer que eu também ajude a tirar? Você não faz nada sozinho, nessa idade?

— Não é isso. Eu pensava que o relógio fosse bastante. Não é um relógio qualquer, veja bem. Coisa fina. Ainda não acabei de pagar...

— E eu com isso? Então vou deixar o serviço pela metade?

— Bom, eu tiro a carteira. Mas vamos fazer um trato.

— Diga.

— Tou com dois mil cruzeiros. Lhe dou mil e fico com mil.

— Engraçadinho, hem? Desde quando o assaltante reparte com o assaltado o produto do assalto?

— Mas você não se identificou como assaltante. Como é que eu podia saber?

— É que eu não gosto de assustar. Sou contra isso de encostar o metal na testa do cara. Sou civilizado, manja?

— Por isso mesmo que é civilizado, você podia rachar comigo o dinheiro. Ele me faz falta, palavra de honra.

— Pera aí. Se você acha que é preciso mostrar revólver, eu mostro.

— Não precisa, não precisa.

— Essa de rachar o legume... Pensa um pouco, amizade. Você está querendo me assaltar, e diz isso com a maior cara-de-pau.

— Eu, assaltar?! Se o dinheiro é meu, então estou assaltando a mim mesmo.

— Calma. Não baralha mais as coisas. Sou eu o assaltante, não sou?

— Claro.

— Você, o assaltado. Certo?

— Confere.

— Então deixa de poesia e passa pra cá os dois mil. Se é que são só dois mil.

— Acha que eu minto? Olha aqui as quatro notas de quinhentos. Veja se tem mais dinheiro na carteira. Se achar uma nota de 10, de cinco cruzeiros, de um, tudo é seu. Quando eu confundi você com um, mendigo (desculpe, não reparei bem) e disse que não tinha trocado, é porque não tinha trocado mesmo.

— Tá bom, não se discute.

— Vamos, procure nos... nos escaninhos.

— Sei lá o que é isso. Também não gosto de mexer nos guardados dos outros. Você me passa a carteira, ela fica sendo minha, aí eu mexo nela à vontade.

— Deixe ao menos tirar os documentos?

— Deixo. Pode até ficar com a carteira. Eu não coleciono. Mas rachar com você, isso de jeito nenhum. É contra as regras.

—  Nem uma de quinhentos? Uma só.

—  Nada. O mais que eu posso fazer é dar dinheiro pro ônibus. Mas nem isso você precisa. Pela pinta se vê que mora perto.

—  Nem eu ia aceitar dinheiro de você.

— Orgulhoso, hem? Fique sabendo que tenho ajudado muita gente neste mundo. Bom, tudo legal. Até outra vez. Mas antes, uma lembrancinha.

Sacou da arma e deu-lhe um tiro no pé.


Texto extraído do livro "Os dias lindos", Livraria José Olympio Editora — Rio de Janeiro, 1977, pág. 54.

Conheça o autor e sua obra visitando "
Biografias".

                                                                                                                                               

Crônica reflexiva:   Assistam!  --- http://www.youtube.com/watch?v=kdfKWcm_cpI
A crônica reflexiva é aquela cujo autor projeta sua interioridade sobre a realidade que está a sua volta, interpretando-a e registrando-a através de conjecturas, inferências e associações de idéias. 
Exemplo
Vitória Nossa 
Olhe ao seu redor e veja o que temos feito de nós. http://www.youtube.com/watch?v=kdfKWcm_cpI
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos, nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de sermos inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor a nossa indiferença, disfarçando nossa indiferença com angústia, disfarçando com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado, por termos a sensata mesquinhez de lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sidos ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos nem sabem se amam. Temo sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de franqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia…
 
(Clarice Lispector) 
Vitória nossa, de Clarisse Lispector é uma obra de reflexão que revela os questionamentos e anseios dos homens. Utiliza uma linguagem que busca nas áreas mais profundas do inconsciente, onde encontram-se os arquétipos do comportamento humano, os desejos e medos, trazidos à tona por uma visão metafórica que interpreta estados de alma.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

PARTICIPE: CONCURSO DOS CORREIOS

Se você tem quinze anos PARTICIPE DO CONCURSO DE CARTAS, promovido pelos correios. 
Para detalhes, dê uma olhadinha nas postagens anteriores. 

Hoje vou postar algumas dicas para quem quer INSPIRAÇÃO! Boa escrita!

1) Pense em uma música que você gosta  muito, quem sabe você utiliza um trecho dela para iniciar seu texto;

2) Pesquisar a história de um grande músico/compositor para utilizar como exemplo em seu texto;

3) Escrever a carta para o seu músico/cantor/compositor predileto;

4) Escrever a carta utilizando vários trechos de músicas de boa qualidade;

5) Refletir sobre o quanto nós somos ligados à música utilizando dados (números estatísticos sobre o tema - a partir de pesquisa, claro).

... 

São muitas opções - tudo depende de qual a importãncia da música para você?

COMO FAZER UMA CARTA ARGUMENTATIVA

http://www.brasilescola.com/redacao/carta-argumentativa.htm
http://www.acrobatadasletras.com.br/2013/02/como-escrever-uma-carta-argumentativa.html


VÍDEOS

http://www.youtube.com/watch?v=x65wvWoEiVo
http://www.youtube.com/watch?v=vKvayUxP4r4
http://www.youtube.com/watch?v=4DOlbybXUDo

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Avaliação

Pessoal, está na página do CMC o gabarito de sintaxe. Lá tem algumas informações extras, não se preocupem com elas, pois seguirei o conteúdo que dei em sala.

Abraços

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Redações que merecem destaque

Olá, caríssimos!

Após lermos os artigos de opinião sobre o recente fenômeno dos "Rolezinhos", estudamos a estrutura do texto dissertativo-argumentativo, discutimos sobre o assunto e produzimos as redações. O tema é muito próximo da realidade estudantil e precisa, sim, ser pensado e compreendido. Embora não tivessemos nenhuma redação que atingisse a nota máxima (10,0), boas redações foram produzidas e focaremos para que ao passar do tempo as notas vão aumentando. Depois das correções a professora Lígia e a professora Simone me ajudaram a escolher uma redação destaque.  Desta vez, foi a redação da Aluna Geovana Santos, da turma 102. A redação foi escolhida devido à boa articulação entre os períodos e parágrafos; boa coerência e coesão, capacidade de progressão textual e argumentação. Selecionei também dois textos que se destacaram por motivos diferentes: estilo e forma. Confiram!


EXEMPLO DE REDAÇÃO BEM ELABORADA EM TODOS OS ITENS                               
(Gramática, argumentação, coerência e coesão e intervenção)

A REALIDADE POR TRÁS DOS ROLEZINHOS
Aluna Geovana Santos - Turma 102

       Os rolezinhos tornaram-se atração para todos os olhares brasileiros logo no início do verão. Multidões de jovens que combinavam passeios através das redes sociais faziam dos shoppings seu ponto de encontro. 
         Pode-se claramente perceber que tais movimentos não tiveram intenções políticas. Aconteceram no período de férias, no qual jovens preocupados com ostentação e exibicionismo passam o dia curtindo e compartilhando ideias na internet, um espaço tão amplo, em que podem ser encontradas milhares de amizades. Nada mais justo do que reunir a galera para bater um papo.
         Segundo a reportagem "O rolezinho e a desumanização dos pobres", exibida na mais recente edição da revista Superinteressante, os shoppings são espaços privados e bem organizados em áreas violentas e pobres, nos mostrando o quão desigual é a sociedade. Pesquisas revelam que até mesmo quem vive no limite da favela quer distância das pessoas que moram nas áreas ainda mais pobres da comunidade. 
          Fica claro ao analisar os fatos que os jovens precisam de espaço. Pelos dados do IBGE, vemos que há cerca de 2,715 milhões de pessoas distribuídas por mais de 1500 aglomerados favelados, onde não são encontradas áreas de lazer, além de uma ou duas quadras poliesportivas. Se a realidade fosse diferente, provavelmente o foco dos rolezinhos e, sobre eles, seria outro. 





A REDAÇÃO MAIS AUTÊNTICA                                                                                         
(Apresentou uma opinião bastante incisiva com estilo de escrita própria, autoria)                

ROLEZEIROS E UM DEBATE QUE NÃO LHES PERTENCE
ALUNO NICOLAS CARVALHO - TURMA 102

              Ainda que ninguém carregasse bandeiras de partidos ou qualquer indício de que se tratava de uma ato político, os rolezinhos se tornaram o centro de um debate político sobre a sociedade brasileira.  E nesse debate, a busca por um significado ideológico dos rolezinhos ocultou os fenômenos em si e as suas reais dimensões. 
            O fato de jovens se reunirem é comum - a internet apenas deu uma nova escala a isso. Os rolezeiros só procuram uma opção de lazer e diversão e provavelmente se indagam como que se chegou a esse delírio sociológico - assim como nós o fazemos. 
         Ainda assim, o modo como consumo e ostentação foram associados com o lazer e a recepção do ato pelos lojistas e policiais talvez denunciem um apartheid classista no Brasil. De qualquer forma, essa é outra discussão que passa bem longe da curtição que era o objetivo dos rolés. 




REDAÇÃO QUE ANTEDE À ESTRUTURA DO MODELO ENEM                                       

A OSTENTAÇÃO DOS ROLEZINHOS
ALUNA AMANDA CAROLINE - TURMA 101

          Nos últimos dias do ano de 2013, jovens vêm organizando eventos através das redes sociais, conhecidos como "rolezinhos". Alguns estudiosos acreditam que esses encontros tenham conotação de luta contra as desigualdades, porém, com um olhar mais crítico, podemos perceber que os rolezinhos são apenas ostentação.
           Em primeiro lugar, seus participantes se reúnem apenas para beber, beijar e "curtir". Eles não estão pedindo melhorias, estão querendo ser famosos, chamar a atenção. Dizem ao mundo que estão ali para ostentar, como vemos em vídeos que eles mesmo postam na internet. 
          Em segundo lugar, ao invés de pedirem mais locais de lazer, menos discriminação, os rolezinhos têm sido sinônimo de bagunça, pois em vários deles ocorreram roubos em lojas do próprio shopping.
         Para resolver este problema, além dos investimentos em infraestrutura por parte do governo, o policiamento nos shoppings deve ser reforçado, para que estes encontros não virem baderna e sejam algo agradável, saudável. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

TÍTULOS "PRÁ LÁ" DE BEM PENSADOS!


Olá, que tal?

Nesta semana que passou, após uma maratona de correções das redações sobre um dos temas mais eletrizantes (!) do momento, precisamos avaliar os resultados: apreciar os acertos e corrigir os erros. Assim, preparei uma seleção dos títulos que alguns professores consultados e eu julgamos interessantes. Temos desde títulos simpáticos e descolados, como "#partiurolezinho", até os mais sérios e perspicazes, como "Rolezinhos: menos protesto e mais algazarra". Bem, confira você mesmo a lista abaixo! 




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